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Quarta-feira, Março 24, 2004
Posted
3:31 PM
by JOELI PIMENTEL
Estou viajando para Curitiba hoje a noite para duas apresentações da minha peça: Ontem à noite fiz minha garota chorar com o meu grupo Bala Perdida. Desde já queria agradecer aos amigos dos tempos em Cambé, que moram em Curitiba pela força que estão nos dando, ao Beto Lanza e a sua namorada, Chris,ao Zé Luis que ainda não conheço, mas vai nos hospedar em sua casa e ao Edvaldo Borgo que divulgou a peça em Curitiba. Valeu camaradas. Ah! E já saiu uma matéria falando da peça no jornal Gazeta do Povo. E segundo a assessoria do festival já foram vendindos alguns ingressos. Mais noticias de lá, da Capital Paranaense. Então é isso.
Segunda-feira, Março 22, 2004
Posted
10:36 AM
by JOELI PIMENTEL
Para o Fauzi Arap, Paulo Autran e o Javert Monteiro
(um dia quando eu crescer quero ser que nem eles)
- Pai, o que aquele homem está fazendo? Ele é louco?
- Ele está fazendo algo diferente. É algo que não vemos todos os dias. É uma arte antiga, a mais antiga de todas.
- É diferente dos programas de tevê dos filmes de cinema, do rádio?
- É a mãe de todas as artes. Ás vezes se confunde com a vida.
- Mas é encantador. Um tanto medieval, mas encantador.
- Ele esta contando a tragédia de ser mortal. Ele nos fala aquilo que vemos, ouvimos, mas, demoramos em entendermos de imediato. Ele faz de sua alma uma lança, que fere, mas nos deixa diferentes. Com uma sensação de conforto. Um ferimento necessário à dor. Entende?
- Pai, o que é dor? Quem a inventou?
- A ganância dos homens. Mas a dor que nos mostra é um tipo único. Um antídoto para esta truculência dos homens.
- Como o que?
- Como a dor que a sua mãe teve para te dar a vida.
- É verdade, eu estou sentindo. A dor é o sofrimento da luz. Mamãe foi quem me disse isso quando eu lhe perguntei do meu nascimento...Pai, ele esta chorando agora?
- É a alegria de ter existido, de ter tido esperanças.
- Ele não existe mais? Vamos embora pai, eu estou com medo.
- Não tenha medo. Não tem mais ninguém aqui, além de nós dois e ele lá no palco. Ele não existe de verdade, é fato. Mas sua arte é a razão (de mesmo depois de morto) de acreditar que tudo que pode fazer pela vida dos outros, ele fez. Acontecimentos que não criou , mas os organizou e deu uma nova luz, um soco no conformismo. Ele agora é um novo ser. Tem horror a autopromoção. Mesmo sendo um celebridade do seu tempo, nunca a usou, nem deu muito valor a isso. O que esse homem fez foi ser o veículo para uma nova era. A que vivemos hoje.
- Pai, que idade ele tem?
- É muito velho. Ele dedicou a sua vida, a sua causa. Ele fez de sua profissão, sua religião, sua comida. Deixou a casa dos pais ainda com pouca idade e perdeu muitos amigos nessa jornada. Sem se alienar. Foi um homem contraditório, não teve medo de mudar. Seu pensamento... Defendeu as causas mais nobres. Morreu várias vezes nos porões das várias ditaduras que combateu. Quando não tinha um palco, ganhou a rua, quando não tinha refletores, coxias, cortinas, vestiu o Sol de manto e a Lua de chapéu e caminhou descalço(como Gandy) e sua voz é ouvida até hoje nos lugares mais inóspitos e distantes. Ele dorme, mas, como um super-homem, esta pronto para ajudar. Mesmo sabendo que governo, imprensa e população não lhe dão tanto valor.
- Pai, o que ele esta fazendo?
- TEATRO. Este homem faz teatro meu filho. TEATRO.
Segunda-feira, Março 15, 2004
Posted
11:18 AM
by JOELI PIMENTEL
Uma das fichas que preenchi deu resultado. Fui escalado pro projeto. Pesquisa domiciliar, era pegar ou largar.
Grajaú fica no cu da cidade. Teria que tomar duas conduções, uma até o terminal de Sto Amaro e outra para completar o percurso. A ajuda de custo não incluía o almoço só as passagens do deslocamento. Quase duas horas fechado, espremido dentro de um ônibus, entupido de trabalhador comum. Entramos na Av Sto Amaro. Parecia que nunca chegaríamos ao terminal. O trânsito estava uma bosta. Todos os dias o trânsito está uma bosta. Só que o piscinão de bosta cresce a cada dia com mais e mais carros na parada. O sonho das pessoas não é mais ter uma casa pra morar e sim um carro. E ainda dois bebuns alugando todo mundo. Parados, antes da catraca, perto do cobrador. Gritando. Dizendo se alguém estava achando ruim era só falar com ele. Ele resolvia. Olhei pro cidadão com o meu rosto queimado de sol. Dei uma risada de ressaca de trabalho. Ele não viu. Queria que tivesse visto o meu escárnio, mas não olhou pra trás. Eu tava emputecido. Doido pra esfolar o sujeito. Pra pegar o cara teria que voltar lá pra frente. Pular por cima das pessoas pisando sobre suas cabeças. Impossível. Esperava que algum outro calasse o pilantra com um soco. Enterrasse o braço inteiro na boca do falastrão. Isso não aconteceu. E o sujeito continuava. Continuava a tagarelar. Ficou mais valente. Tirava todo mundo: o motorista, o cobrador. Um grupo de estudantes, (todas meninas) era o seu alvo preferido. Gritava para elas calarem a boca de safadas. Elas obedeceram com medo dos caras e pararam de conversar. Eu enrubesci. Meus braços formigavam de ódio. Agora só pensava em matá-los. Uma morte lenta, dolorosa e continua. Tortura assistida por uma ampulheta de juíza.
Preso pela massa humana. Pensei em descarregar um pouco do ódio xingando, mas iria parecer duas mulherzinhas reclamando nas janelas, atirando confetes, ele de lá e eu de cá. Sem ação nenhuma. Fiquei quieto. Tentei fazer o mesmo que os outros passageiros. Mas era foda meu. Fingir que nada estava acontecendo. Como as pessoas são frias. Como conseguem deixar que caguem em suas cabeças e não reclamam? Bom, refleti. Vai que um dos caras está armado? Pior. E se eu apanhar? Bom mas pelo menos fiz alguma coisa né porra. Não! Uma faca pode até ser que tenham escondida debaixo da camisa. Acho que arma de fogo não. Se não já estariam se gabando do poder de ter um revólver. Se quisessem amedrontar mesmo os passageiros já o teria sacado, posto pra fora ao alcance da visão de todos. O mais encrenqueiro dos dois tinha uma tatuagem no braço, números. Deveria ser código de barra de prisão. Espantei o pensamento de vingança da cabeça. Olhei pra fora do ônibus, já estávamos chegando no terminal de Sto Amaro.
- Graças a Deus chegamos, falou a senhora apressando-se para a saída.
Desci do ônibus já estava atrasado. Como sempre. Fui procurar o ponto do outro carro que embarcaria. O fiscal me disse onde ele estacionava. Era próximo onde acabara de desembarcar. Voltei então. Os dois bebuns ainda estavam lá. Dentro do carro. Queriam pular a roleta e não pagar a passagem. Chegaram os segurança, e eles foram arrancados do ônibus aos socos. A valentia sumiu. Choravam. Pediam desculpas ao motorista por terem xingado ele, importunado os passageiros. Por favor, por favor... Tiveram o que mereceram. Podem esculhambar com o orgulho das pessoas mas não se meta a besta com o capital do patrão.
Depois de caminhar um bocado a pé avistei a placa da rua. Ladeira digna de alpinistas. Escalei a montanha sem cordas. Os carros subiam numa lerdeza de dar dó. Motor mil com mais de três ocupantes não agüentava, os caronas tinham que descer. Quando cheguei no topo vislumbrei. Devia ter a altura de um prédio de vinte andares. Número par, lado par. O céu carregando-se de nuvens. Comecei. As casas estão vazias. Eu acho. Nem uma alma do lado de fora para me receber. Aperto a campainha (quando tem uma). Bato palma ninguém atende. Aperto a campainha. Bato palma. Ninguém vem atender. O que será que aconteceu com os moradores dessas casas? Só os cachorros me atendem latindo no portão.
- Responde um pesquisa?
- Au-au, Au-au, Au-au...
- Isso quer dizer sim?
Pulo aquela e vou para outra casa. Tem luz acesa. Não tem campainha. Eu deveria é vender campainha. Agarro a prancheta com as pernas e bato palmas. Espero. De novo. O sol se esconde, o ar sopra um vento frio. Toco samba com as mãos. Me animo. Puxo uma música do Branca de Neve: Meu nome é... Nada. A cortina da sala se abre. Um homem sem camisa aparece. Deveria estar dormindo, ou comendo a sua patroa. Ele fica me olhando.
- Que barulheira é essa no meu portão?
- Trabalho para...
- Vai se foder. Não vê que eu estava dormindo e você fodeu o meu sono.
Bom, pelo menos não fui um empata foda.
Nessa, crianças brincam nos fundos da casa, dava para vê-las através da porta de ferro de vidro batido. A garotinha maiorzinha perguntou de longe sem se aproximar de mim o que eu queria.
- Quero falar com a sua mãe ou o seu pai.
Ela entra na casa. As outras duas meninas menores botaram a cara na porta entre aberta.
- Quem é ele?
- Acho que é um mendigo querendo comida. Vamos brincar. Bateram a porta. Dava para ouvi-las brincando no corredor.
- M-e-n-d-i-g-o. Olhei para minha roupa. Alisei a barba de uma semana. Comecei a rir. Aparência de um morto de fome.
Esperei e ninguém deu as fuças. Pela janela aberta eu via a televisão ligada. Estava passando a novela da tarde. Comercial de sabão em pó. Um corpo de mulher levantou-se lentamente de trás do sofá e veio lentamente até a janela.
- Pois não.
- Meu nome é Dimi, e eu trabalho pra Demanda que é um instituto de pesquisa de mercado e... - Eu detesto falar quando as pessoas estão longe e ainda o cachorro dela latia ao mesmo tempo quando eu falava. Parecia que o filho da puta fazia de propozito. Era eu começar a falar e...
- O que você disse?
- Que eu estou fazendo uma pesquisa de...
- Eu não estou interessada, não quero comprar nada não.
- Eu não sou vendedor não...
Voltou lentamente pra sua novela idiota. Jogou o corpo no sofá e ali permaneceu. Quando o marido chegasse do serviço ela estaria ali ainda, vendo a novela das seis esperando a das oito, talvez ele a encontrasse morta e fedendo com o controle da televisão na mão. E aquela noite ele teria de fazer o jantar e dar banho nas crianças. Um mês depois de enterrada a sua amante já teria ocupado o seu lugar. E a nova esposa compraria um sofá novo pra combinar com as cortinas.
O cachorro dela ria de mim. Não latia. Curtindo uma da minha cara. Sentado a um metro do portão. Coloquei a minha mão para dentro da grade da cerca. O cachorro tentou morder, pulou sobre ela, mas fui ligeiro, dei-lhe uma cacetada forte com o bico da prancheta no foucinho.
-E agaro seu nazista? Tá feliz? Lati agora pastor alemão. Me mandei dali cantando trecho da música do Roberto Carlos: O cachorro me sorriu latindo... Passei o resto do dia trabalhando noutro quarteirão.
Segunda-feira, Março 08, 2004
Posted
5:31 PM
by JOELI PIMENTEL
Porque você faz teatro?
Porque tentar chegar a algum lugar se o lugar é nenhum? O mais perto é o vazio, no final é uns trocados é alguns elogios ou o escárnio da audiência? Porque passamos horas falando, discutindo, brigando em torno de um texto? A onde você quer chegar? As páginas dos periódicos, das revistas especializadas, que tudo anuncia, mediante taxas de espaço e suas medidas de ocupação, aos telefonemas aos críticos, com direito a quantos convites quiser? Aos jornais e suas confrarias que tudo enobrece, como se tudo soubesse. E ai que pretende implantar seu quinhão de conhecimentos gerais? É ai que quer pendurar sua alma, suas horas de insônia, sua pesquisa, seu corpo dolorido de tanto sofrer as cãibras do esgotamento estrutural? É para isso? Ficar doente e ter acessos de estress, formigamento nos braços, a boca entortar o peito sentir agulhadas? É para isso que faz teatro?
Mas o que consegue é ter a goela queimada de azia de tanto tomar café. Quando nada consegue, bebedeiras de balde. Quanto desespero como um peixe que luta por ar fora do seu habitat. Sofres calado ou berrando, mas para que tudo isso? Pagar para dizer o que não quer calar, o que não querem ouvir? Lutar contra as ditaduras capitalistas e globalizadas da ignorância, sua, a nossa a do público? Enlouquecer entrincheirado na sua luta achando que a sua dor é a de todos, e o mundo é para todos? Se afastar da família, dos amigos, se perder, ganhar inimigos? É isso que é teatro?
O teatro é nossa casa é nossa família.
Sim ao conformismo? Então vamos ver mais uma peça estrangeira, ocupar nossos teatros, ganhar nossas verbas com sua luz bem acabada, seu cenário suntuoso e seu texto enfadonho? Sim ao pensamento Inglês, Francês e Americano? Eles tem muito a contribuir para o Brasil? Sim, tem todos os méritos seus descobridores, seus importadores? Sim somos iguais aos europeus e seu tédio, suas igrejas, suas viagem de verão seus castelos em ruínas construídos com nosso endividamento?
Só seremos um povo mais unido nesse Frankestain, nessa simbiose de todas as raças quando deixarmos este sentimento de inferioridade, quando nos unirmos, quando criarmos uma avalanche pra cima do mundo. Só assim deixaremos de sermos manipulados pela política yanque.
Sim ao conformismo? Montar textos estrangeiros é ser sofisticado, inteligente? Ou é uma maneira de esconder o seu medo a sua incapacidade de absorver a sua terra, a sua gente? Mas o produto nacional, modernista, com sua arte colonial antropofágica é pobre para a elite pensante. Nosso cultura é fruto de todas as culturas, mas todos engolem a seco e bem rápido quando se fala em arte nacional, mas deixam o rabo de fora da boca na pressa de esconderem sua verdadeira fuça subdesenvolvida, mas quando flagrados teimam em rejeita-la. Sim somos devoradores de todos as raças. Mas aqui no Brasil da nossa cabeça, posto no liqüidificador de nossos pensadores, escritores, atores, diretores, cineastas, músicos etc, temos ai nossa verdadeira identidade. A arte é nossa bomba atômica contra os corruptos, os conformistas, os atravessadores, os exploradores, os déspotas e toda a corja covarde que se esconde atrás de algum cargo publico, ou mídia oportunistas que ajudam a eleger péssimos políticos, em nome da expansão de seu império.
Porque você faz teatro? Pra fazer novela na globo? Para agradar, para ficar posando de inteligente, gênio? Ou para ser reconhecido na rua, ou para ser lembrado pela história? Você deve pelo menos tentar fazer alguma coisa pela sua gente.
E agora porque você faz teatro?
Segunda-feira, Março 01, 2004
Posted
6:14 PM
by JOELI PIMENTEL
O meu grupo de teatro, Bala Perdida estará se apresentando no Festival de Curitiba, Fringe com a peça: Ontem à noite fiz minha garota chorar, nos dias 26/03 as 12hr e dia 27/03 as 18:00 no Ateliê de Criação Teatral - Av Candido de Abreu, 660 - Centro Cívico Curitiba - PR. E depois segue temporada de 01 a 30/04 quinta e sexta-feira as 21:hr no teatro N.Ex.T, rua Rego freitas, 454 - Centro - São Paulo.
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