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Sexta-feira, Abril 30, 2004
Posted
11:57 AM
by JOELI PIMENTEL
cia. Bala Perdida: .
Hoje é a nossa última apresentação de Ontem à noite fiz min ha garota chorar que está no teatro N.Ex.T, Rego Freitas 454 no centro, próximo do metrô Republica. Que pena que temos que sair de cartaz, porque ontem foi o dia que o público realmente nos descobriram, até o dramaturgo e ator João Fabio Cabral deu as caras lá. João é um antigo camarada que também gosta de comer costela na madrugada. Ele também tá na luta para tentar colocar seus textos em cartaz, recentemente estava em cartaz com um trampo seu, Em Nome das Coisas Boas, que já saiu de cartaz. Recebi um e-mail bacana de um cara que foi ver a peça ontem e segundo ele, não curtia muito teatro mais mesmo assim foi ver pela incistência dos amigos. É por isso que apesar de tantas dificuldades ,nós, atores, não desistimos. Segue ai trecho do e-mail do cara.
Olá, tudo bem? Ontem, quinta-feira, 29, fui ver a tua peça lá no N.ex.t por indicação de um amigo meu pelo simples fato de ter "gostado do nome". Não costumo ir muito ao teatro, mas dessa vez foi diferente. Paguei pra ver... E posso dizer que não me arrependi, muito pelo contrário... A peça é muito instigante. E muito engraçada também. Ele (no caso, vc) chapado, em cima da cama, é mto hilário... Bom, mas vamos ao real motivo deste e-mail.
Foi unanimidade entre eu e amigos que tb viram a peça que a Trilha Sonora é muito boa. E é justamente por esse motivo, além de parabenizar a Companhia de Teatro pelo excelente trabalho, que fui procurar algo no Google. E achei a melhor frase da peça: Cadelas no cio não usam lingerie. Enfim, fantástico.
Desde já obrigado pela atenção e muito sucesso no teu trabalho....
Um abraço,
Thiago Mantovani.
serviço:
Ontem à noite fiz minha garota chora
texto/direção/sonoplastia/iluminação: joeli pimentel
elenco: danielli avila e joeli pimentel
assessoria de imprensa/op. de som/bilheteria: janaina fainer
op. de luz: daniela oropallo
produção: danielli avila e Bala Perdida
Quinta-feira, Abril 29, 2004
Posted
11:04 AM
by JOELI PIMENTEL
Olho para as minhas mãos demoradamente e sinto a solidão do anel nos meus dedos. Lembro do dia que ela me pediu um anel para que pudéssemos usar juntos. Como se um pertencesse ao outro. Ela queria que eu pensasse numa frase para por no anel. No anel deveria estar gravado: Porque é assim. Mas não tem frase nenhuma - ela disse que seria diferente, que o nosso anel seria diferente, que todo mundo escrevia alguma coisa, mas, o nosso anel ficaria sem inscrição nenhuma. Então este anel, foi feito pelo meu tio - rusticamente. Com moedas. Meu tio faz isso para sobreviver: anel, tarrafas e redes de pescar. Ele não quis cobrar nada de mim pelo serviço, disse-me que os anéis eram um presente. A sua idade é imprecisa, mas creio eu, que beira aos oitenta anos - ele tem os dedos das mãos tortos de artrite. Isso dificulta bastante seus movimentos. A doença já está numa fase avançada. Sente dores fortes, mas não pára, esta feliz, e eu sei porque, porque fui eu quem lhe encomendou as alianças. Sabe que eu não vou casar nem nada, mas acredita que tenho uma missão. O meu velho tio sorri para mim e continua a trabalhar. Levou uma semana martelando. Muitas moedas se quebraram. Mas ele não desistiu. Encomendei um par de alianças brancas. Pacientemente girando a moeda e batendo, batendo com o martelo. Ele me disse que eram moedas japonesas antigas, que seu brilho dependeria de cada um de nós. Enquanto eu assistia a sua arte, ele batia, batia, pem, pem. E eu lá pensando nela, olhando através da janela dele, vendo lá fora uma folha que desgrudara da árvore, mas parece que queria voltar para junto das outras folhas nos galhos, mas a corrente de ar a rodopiava. E a coitada da folha, sozinha e desgarrada, esperava cair logo no chão e se juntar ao cemitério de folhas mortas, mas também não podia. Como uma brincadeira do destino, ela foi lançada para outra corrente de ar e um vento muito mais forte a carregou para mais longe.
Agora giro o anel no meu dedo e lembro dela e da folha. Se me perguntarem o porque do anel, olharei para as copas das árvores e direi: É que sou noivo de uma linda folha daquela árvore que o vento me roubou. Desde então virei um escravo, sempre de guarda, a espera que um dia, ele, o vento, me devolva o meu amor, a folha que me roubou.
Posted
11:00 AM
by JOELI PIMENTEL
Sei o meu caminho e também sei o meu destino, só que estou sem grana pro buzão
Quarta-feira, Abril 28, 2004
Posted
12:44 PM
by JOELI PIMENTEL
Segunda-feira fui ver a pré estréia do filme do Walter Salles, Diários de Motocicletas, sobre a vida de Che Guevara e seu amigo Granada, ambos estudantes de medicina. Não espere muito desse filme burguês, só uma diversão sem graça que repete os velhos clichês. Bebi um pouco de vinho, fiquei bebado, trombei uns amigos, Beto Brant e sua esposa e o Marçal Aquino que desta vez jura que vai ver a minha peça. No final da festa, mais chumbado ainda subi na moto que foi usada no filme contrariando os seguranças. Marçal gostou da minha molequici. Depois fui pra casa, pensando no tal filme. Aquele lance de rebeldia da juventude que esperava ver, não vi. Se você gosta de filmes de sessão da tarde, então vai gostar. Quem não deve ter gostada é o espirito de Che.
Segunda-feira, Abril 26, 2004
Posted
1:10 PM
by JOELI PIMENTEL
Cia. Bala Perdida convida para as últimas apresentações:
Esta semana são as últimas apresentações da minha peça: Ontem à noite fiz minha garota chorar, se não viu vai ver, não sei quando volto em cartaz com algum trampo meu, espero que seja em breve. Estamos em cartaz no teatro N.Ex.T , a peça ficou bacana lá, pela acustica e pelo equipamento que é de primeira, para a peça que é bem intimista, ficou du caralho naquele espaço. Repito a frase do cara que esta caindo de cima dum prédio no filme O Ódio, quando seu corpo esta caindo ele diz: " Até aqui tudo bem." No Elenco além de mim, Danielli Avila que também assina a produção. Valeu Dany sem você esse projeto não teria decolado.E valeu também por ter me suportado. Valeu mesmo.E também quero agradecer a Janaína Fainer que fez a assessoria de emprensa e também fez a operação de som e a bilheteria, e a Daniella Oropalo que fez a operação de luz. Minas valeu. Ah! E provavelmente estrearei meu primeiro texto: Comprei um Treisoitão e fui Brincar com Deus basta achar um teatro. Então é isso, agora vou procurar emprego, preencher fichas e mais fichas.Quem sabe consiga juntar uma grana para pagar um espaço.
Quinta-feira, Abril 22, 2004
Posted
4:25 PM
by JOELI PIMENTEL
"O amor é mais frio que a morte - Mas o cinema é mais quente que a vida" RWF
Esse cara tinha tara pelo cinema e de contar estórias, seus diálogos casavam-se bem com suas imagens. Tinha um bom ouvido para diálogos e...
Andou um bom tempo com um livrinho encardido no bolso da calça. ("Querelle de Brest" de Jean Genet)Tinha um desejo, filmar esse texto, mas a sua maneira, que ainda não era nenhuma. Passava horas dentro dos cinemas. Um jeito que encontrou de fugir da sua realidade na Alemanha do pós guerra. E também para fugir de sua vida ordinária e sem recursos. Mesmo assim fez algumas experiências em cinema rodando os curtas: O Vagabundo e O Pequeno caos. Convicto do que queria fazer o resto da sua vida, candidata-se a uma vaga na recém formada escola de cinema de Berlim, mas pra sua decepção é recusado. Sorte nossa. Ele viria a se tornar o maior cineasta da Alemanha, o mais contraditório, na minha opinião, o melhor cineasta do país de Adolf Hither (1889-1945).
Ele se arriscava, punha dinheiro seu nos filmes. Tudo ele fez de mais: bebeu demais, brigou demais, escreveu demais, foi louco demais, um homossexual inveterado. Tomou todas as drogas, todas as doses. Fumou haxixe e maconha com copadas de bourbon em copos descartáveis e principalmente fez filmes demais, não o suficiente para seu talento, com certeza teria feito muito mais se a pressa da vida e o descuido com a sua saúde não o matassem de overdose no dia 10 de junho de 82 (1946-1982). Ele dizia que tinha mais energia que qualquer bomba. Chegou a filmar cinco longas metragens em um único ano, isso fora as peças que dirigia, e projetos para a tevê, detalhe, todos os roteiros eram do cara. "Dormir eu posso só quando estiver morto" dizia. Quando um produtor lhe propôs um contrato de cinco anos para fazer apenas um filme por ano ele soltou na bucha: "O que é que eu vou fazer durante o resto do ano?"
Rainer Werner Fassbinder chamava a responsa pra si, agregava todos os defeitos da sociedade. Quer melhor forma de sondar a sociedade? Tem uma frase de Thomas Man que explica um pouco o gênio louco que era, "Eu lhe digo que muitas vezes sinto um cansaço mortal por representar o humano sem fazer parte do humano", frase esta citada no final do seu filme," Precaução diante de uma prostituta santa (de 1970). Seus filmes para o cinema, que não foram poucos, uns quarenta longa metragens no total, tratavam da lama da alma humana. Mesmo ele sendo um déspota um tirano como atesta alguns atores que trabalharam com ele : "Fui uma boneca teleguiada por ele", Hanna Achygulla principal atriz, "Eu nunca tive a sensação de que Rainer, ao escolher um ator para um papel, estivesse interessado em saber como ficaria a personagem em questão (...) mais sim a forma de histeria que pudesse vir a expressar(...) ele nos usava, nos explorava." Ingrid Caven atriz e ex-mulher. Mas todos concordam que seu método funcionava. É só ver o resultado nos filmes para atesta-los. Seu método de direção de atores era um risco para a saúde, tanto dele como de quem se submetia a sua psiquiatria cênica. Ele dizia que se não fosse um opressor sua luta pela liberdade não teria tanto efeito como teve. Antes do sucesso no cinema, formou a sua cia. de teatro, o Antiteatro junto com Hanna Schygulla, Peer Raben e Kurt Raab todos ex alunos do Action-Theater de Munique. Com sua companhia montou nove ou dez espetáculos de teatro, quase todas adaptações e peças suas.
RWF fez várias pontas em vários filmes, mas foi em abril de 1969 que roda seu primeiro longa metragem, "O amor é mais frio que a morte." Mas seu derradeiro filme, lembram lá no começo desse artigo, que ele andava com um livrinho no bolso de Jean Genet, então, este foi a sua obra de morte que lhe valeu um Oscar. Seu homossexualismo e seu temperamento lhe deixavam a margem, calado, solitário e muitas vezes foi roubado por amigos. Levado ao consumo excessivo de drogas e bebidas e o trabalho estressante e ao ritmo que se impunha a si mesmo vieram a lhe matar. Ironia, o primeiro filme que queria filmar "Querelle", mas no entanto é seu último a ser rodado. E daí em diante nem a foice da morte mais vai conseguir parar essa locomotiva apressada. "Eu gostaria de ser para o cinema o que Shakespeare foi para o teatro, Max para a política e Freud para a psicologia: alguém depois do qual nada mais é como antes". RWF. Acho que você conseguiu, pelo menos para mim. Foi graças ao seu trabalho a sua biografia que li e os seus filmes que vi que encontrei apoio para o que eu viria a escrever para o teatro futuramente, depois de ter contato com a sua luta ,"me senti menos só, menos sozinho", como diz uma letra da música do Zeca Baleiro.
Joelipimentel@yahoo.com.br
Filmes: As lágrimas amargas de Petra von Kant, O casamento de Maria Braun e o tele-filme de 13 partes e um epilogo, Berlin Alexanderplatz , Lili Marleen, Querelle e um documentário: Teatro em transe.
Livro: Posso dormir quando estiver morto. A vida sufocante de Fassbinder, tradução Márcio Suzuki: Brasiliense e outros mais.
Terça-feira, Abril 20, 2004
Posted
8:30 PM
by JOELI PIMENTEL
Duas minas foram ver Ontem à noite fiz minha garota chorar e escreveram sobre a peça no blogger delas(meninasinsanas.blogger.com.br) :segue texto abaixo:
(Tais escrevendo)
Faz uma semana fomos assistir à peça "Ontem à noite fiz minha garota chorar", de Joeli Pimentel, com produção do grupo Bala Perdida.
Ainda não tinha escrito nada específico a respeito porque, simplesmente, ainda não parei de mastigar algumas cenas, falas, intenções da peça.
"Ontem à noite.." é coisa para a gente ficar um tempo digerindo, devagar. Antropofagicamente falando.
Nos faz pensar muito, na condição humana, especialmente na condição do artista.
Essas pessoas, que lidam de uma forma tão forte com os sentimentos, com as sensações, que mal podem controlá-las.
Sensações que tomam a forma de um gesto, uma frase, uma nota, e que adquirem vida própria.
Como conviver com quem vive nesse turbilhão de emoções?
Ficaram algumas perguntas rondando por aqui, tentando encontrar respostas, me remetendo à situações já vividas (por mim ou não).
De fundo, um casal vivendo os desencontros de uma relação explosiva, marcada pelas diferenças culturais, econômicas, sociais.
Ilusões se despedaçando, sonhos irrealizáveis, a criação frustrada, o carinho não cedido, o coito interrompido.
Tudo ali, brutalmente retratado, aquelas cenas...
O que posso dizer é que fiquei passada, atônita, por ver tantos sentimentos obscuros escancarados na minha frente, tão perto, no palco.
E desejo a vocês que fiquem passados também, e que como nós, despertem dessa mesmice.
Sim (agora é a Flávia escrevendo), aconselho a todos a assistirem a peça.
Como havia escrito uns dias atrás, acabou rolando uma conversa pós-peça sobre tudo que foi dito pela Tais ai em cima, especialmente por que às vezes eu me via um pouco em algumas cenas, situações, confusões de sentimentos...
Foi inevitável lembrar daquele homem em seu mundo particular, sua bolha, vivendo essa efervecência de criações, e me excluindo solenemente desse processo...
Sensação de que não restavam sentimentos para mim: ele era inteiramente sugado para dentro de sua arte.
Triste de recordar como eu exigia dele uma atenção que ele nunca vai destinar a ninguém...
Me vi ali, no palco, ora num papel, ora noutro... Tão estranho...
Acho que o Lee se viu na frase: "DJ só aperta o play", ele deu uma risada sutil e deve ter lembrado das horas que passou trabalhando em cima de samplers, batidas, bits, Vila(s)Nova(s) e Sam(s)sara(s) da vida. DJ trabalha pacas!
E tenho dito!!!
Ontem à noite fiz minha garota chorar
Teatro N.Ex.T
Rua Rego Freitas nº 454, Vila Buarque.
Tel: (11) 3106-9636
quintas e sextas feiras às 21h
Gênero: Drama
Duração: 55 minutos
Lotação: 60 lugares. Ingresso: $10 ($ 5 estudantes e classe teatral).
Censura: 16 anos
Em cartaz até 30 de abril de 2004
Sexta-feira, Abril 16, 2004
Posted
12:05 PM
by JOELI PIMENTEL
Tocou o despertador. Dou close lá fora, é noite ainda. Ascendi à luz. Desliguei o relógio. Mijei, escovei os dentes, joguei água no rosto, molhei o cabelo, penteio com os dedos. Visto a calça, coloco a camisa. Pego uma meia limpa no saco e embrulho os pés. Calço o tênis. O par de tênis que tenho é de lona velha arrebentada. A marca é boa, Olímpicos. Faz mó cara que eu mesmo não compro sapato decente pra mim. Vivo com muito pouco dinheiro. Na base do esculacho. Este último foi presente de fim de ano quando passei o natal na casa de minha mãe em Cambé, no Paraná. Foi pago em várias prestações. Eu não queria, mas não podia magoá-la. Mãe é mãe. Minha outra irmã fez compra de roupas no nome dela e não pagou. O nome da minha mãe foi parar no SPC. No corredor, aperto o botão. Tranco a minha porta enquanto o elevador não vem. Ele chega, pulo dentro. Na portaria sou parado pelo seu Antônio o porteio do prédio ele quer me falar alguma coisa, tenho pressa.
- O seu Joaquim disse que vem hoje colocar a fechadura na sua porta. Você vai estar ai à tarde?
- Não. Tô indo trabalhar, só volto no fim da tarde.
- Como é que faz?
- Posso deixar a chave com o senhor?
- Claro.
Não demorou muito e a maquiagem começou a desmanchar. Fui descobrindo dia a dia a roubada que tinha entrado alugando esse apartamento: o encanamento quebrado, o cheiro podre dos esgotas saindo pelo buraco da pia, do tanque e da privada. Uma dia fui tomar banho de banheira ai caiu o reboco do buraco que era para escorrer a água e baratas e mais baratas saiam por ali sem parar, depois descobri também que o chuveiro não fechava e alagou o quarto. Reclamei com o zelador ai ele disse que a imobiliária mandaria alguém. Mas esse alguém nunca vinha.
Dei a chave pra ele e fui trabalhar já tava atrasado.
Os outros dois caras que iriam trabalhar comigo também estavam atrasados. Avistei uma padaria, daria tempo pra engolir o café. Sentei em frente do balcão e pedi o meu com: café, leite e um pouco de chocolate. Cappuccino de boteco. Esse veneno me deixaria acordado e disposto pra jornada de oito horas ralando no sol.
- E dois pão com manteiga na chapa. O cara do balcão foi buscar.
Mandei tudo pra dentro. Nisso os outros dois pesquisadores chegaram.
- E ai cara vamos começar?
Cercava as pessoas na rua que não paravam de jeito nenhum:
- Eu sou da Data Folha. Poderia responder uma pesquisa.
- NÃO.
- Bom dia poderia...
Nem me olhou.
- Bom dia...
- Trocou de calçada.
- Bom dia...
- Bom dia... me deu bom dia e continuou andando o engraçadinho.
- Bom dia eu sou...
- Agora tô com presa tenho que trabalhar.
- E o que eu estou fazendo? Isso não é trabalho? Pra ele acho que não. Continuou seu caminho. Nada o faria parar. O relógio ponto o esperava.
- Responde uma pesquisa?
- Tô em cima da hora. Não vai dar.
- ¿Tô em cima da hora¿. Essa é boa. Essa dona tem um relógio no rabo.
- Está falando comigo?
- Responde uma pesquisa pra mim...?
- É rápido?
- Durante a corrida, das setenta voltas o piloto Rubens Barrichelo ficou na frente as sessenta e nove voltas liderando até o final da prova. Na reta final deixou que seu companheiro de equipe Michael Schumacker ultrapassasse e ganhasse a corrida. Você acha que Rubens Barrichelo: 1 Agiu bem ou 2 Agiu mal?
joelipimentel@yahoo.com.br
Quarta-feira, Abril 14, 2004
Posted
7:26 PM
by JOELI PIMENTEL
Acordei cedo, era sábado, o relógio marcada dez pro meio dia ainda. Fui até o banheiro. Tentei mijar, mas o pau tava duro demais, o líquido foi pra fora espirrando nos meus pés descalços. Subi na privada e soltei feito mulher. Pensei em tomar banho pra estrear aquela banheira grande, me refestelar num banho de espumas. Pagar uma de patrão, mas só estava o cano d¿água sem o chuveiro. Teria que providenciar um assim que possível. O último inquilino depenou o apartamento, levou até o assento da privada embora. Pra cagar e mijar subia na patente. Quando se mora sozinho por muito tempo a gente acaba adquirindo certas manias estranhas como essa.
A minha mudança resumia numas poucas caixas de papelão contendo as minhas coisas: roupas e livros, cd¿s e filmes preferidos. Mais cedo ou mais tarde teria que abri-las, mas isso podia esperar. Estralei a lata de cerveja. Abri uma das janelas e fui espiar a vizinhança. Dei um longo gole. Durante o dia a rua era tomada por camelôs nas calçadas. De noite virava um deserto. Só a puta e o malandro, o traficante e o viciado em coca e crack que se arriscavam sair. A policia aparecia, mas você não sabia qual a deles. De que lado da cerca eles estariam quando as coisas realmente esquentassem pra você. Era melhor não aborrece-los. Vez ou outra um bêbado era assaltado e espancado e deixado na calçada com o fundo dos bolsos pra fora da calça. Abri a outra janela. Mais um gole. Gluc, gluc. O prédio vizinho assustava. Gluc. Parecia que tinha sido atacado por aviões de guerra, metralhado, dinamitado e sobrevivido as bombas. Era uma construção esquecida. Remendada. Sem reboco. Fodido. Todo zoado. Prestes a desmoronar. Boa parte das pessoas que moravam lá trabalhava por ali mesmo, nas lojas ou vendendo material falsificados. Eram na sua maioria pobres, negros, nordestinos, putas, travestis e punguistas. Viviam ali todos os tipos de deserdado. O gueto. Também moravam pessoas decentes, de bem, que ganhavam uns trocados dignamente. No fim de tarde eu os observava da janela saltando de calçada em calçada driblando os faróis voltando do supermercado carregados de sacos de compras do Barateiro. Raiando com seus filhos que jogavam uma partida de futebol no campinho improvisado no meio da rua movimentada de carros.
As pensões e os hotéis baratos do centro são barra pesada. Todo dia tem freguês indo pro necrotério visitar parente. Um homem morto de madrugado passou o dia inteiro apodrecendo na calçada a espera duma viatura para remove-lo. A população indignada cansada do mal cheiro, botaram o cadáver do homem num táxi e despachá-lo para a prefeitura. Gluc, gluc,gluc.
Moravam amontoados no mesmo quarto desse prédio, oito, doze pessoas até mais: mãe, pai, filho, enteada, neta, genro e vó sem computar os animais domésticos. Vi um vulto numa janela aberta do prédio fodido. Na sei se era um travesti ou uma mulher, estava pelada. Era uma negona peituda. Ela botou os peitões na janela e me encarou. Por um instante pensei que iria estende-los no varal. Fumava um cigarro olhando a rua deserta observando a chuva fina caindo na calçada. Fiquei olhando, achei que a negona poderia se encabular, mas não, eu que me encabulei. Cagão. Atirei a lata vazia na rua e fechei a janela. O cacete tava um ferro. Não agüentei e meti a cara pra fora de novo. Merda. Ela não estava mais lá. Tirei o bicho pra fora, na esperança que ela aparecesse novamente. Esperei e nada. Baixei a janela. Cuspi na cabeça da rola e sapequei uma assim mesmo.
Quinta-feira, Abril 08, 2004
Posted
1:08 PM
by JOELI PIMENTEL
Tarantino não é mais o mesmo?
"A vingança é um prato que é melhor servido frio", é logo após esse provérbio que começa o mais novo filme de Quentin Tarantino, Kill Bill. Depois de Cães de Aluguel, Pulp Fiction e Jackie Brown e uma parceria com Robert Rodrigues (El Mariachi) no fraco, mais divertido trailer 'B' Um Drink no Inferno, o diretor volta a filmar depois de alguns anos de ausencia só assinando parcerias em roteiros.Kill Bill estréia dia 23 de Abril nos cinemas. Quem for ver o filme com os antigos trabalhos do diretor em mente, esperando bons diálogos, atores carismáticos e uma violência cínica, ficarão decepcionados. Desta vez Tarantino parece fazer uma homenagem aos antigos filmes de Kung-fu misturado a filmes de samurais. Parte da estória se passa nos EUA, e parte no Japão, e com cenas gravadas em estudio. Será que ele perdeu o jeito? Ou será que Tarantino se rendeu de vez a Hollyood? Ou está fazendo o jogo da Miramax? Kill Bill é um filme a la Panteras, cheio de cenas que tem um mix de lutas acrobáticas, estilo Matriz. Os adolescentes vão gostar. Com poucos diálogos e muita pancadaria marcial e lutas de espadas. Nesse filme como em Cães de Aluguel, Tarantino volta a usar codinomes para as personagens: Uma Thurman é Mamba Negra uma assassina em busca de vingança, e David Carradine é Bill que quase não aparece, e ainda no elenco Michael Medsen que tem uma pequena participação e ainda Lucy Liu e Daryl Hannal entre outros. Até na trilha sonora Tarantino escorrega, mas vale a pena pela música inicial dos créditos, uma balada romântica. E ainda tem a participação de uma banda formada só por mulheres japonesas. Elas participam cantando rockinhos dançantes em uma cena do filme. Creio eu, que essa banda é a mesma que antes de ser dissolvida gravava músicas no estilo Surf music com letras em japonês. Tarantino pontua a ação com trilhas orquestrais que lembram lutas marcadas com frases musicais, como naqueles antigos seriados de televisão, como nas brigas de Batman e Robin com os vilões.
Terça-feira, Abril 06, 2004
Posted
12:46 PM
by JOELI PIMENTEL
Trabalho de Composição
Quase sempre utilizo em minhas peças um ambiente fechado, ou no decorrer da trama ele vai se fechando. É uma maneira de encurralar a personagem e praticamente força-lo a tomar uma decisão. Ontem à noite fiz minha garota chorar, é uma peça que um casal em um quarto é obrigado a se encarar, mesmo com todo o conforto eletrônico, chega um momento que não dá para suportar, é como um cachorro preso, mas que foi acostumado a sair de casa para passear todo fim de tarde e quando isso não acontece ele fica agoniado. É claro que isso provoca uma reação, quase sempre agressiva para com o outro. Você acaba se tornando cínico, desconfiado, cético. Daí começa a se afastar do outro pelo tédio que sentem, e pelo fim da admiração que tinha pelo companheiro que não supriu suas expectativa e agora foi se acabando, e o distanciamento que cada um, por vaidade ou egoísmo, vai tomando conta da relação, até destruí-la por completo. Esses ambientes caustrofóbicos, levados ao espaço físico do teatro, acho, que quase dá para criar a mesma sensação de aprisionamento psicológico da personagem. Uma espécie de metáfora para o mundo de competitividade, stress e pressa que vivemos. Gosto de escrever estórias que mostrem o ser humano em estado bruto, longe dos papéis que representamos no dia a dia para os outros. Só somos nós mesmo, acredito eu, quando estamos no aconchego do nosso lar. É nesse ambiente tranqüilo cheio de segurança, o único lugar onde as pessoas fazem e falam o que normalmente não fazem em público, como aquele comentário crítico e maldoso sobre a conduto ou trabalho de determinado amigo(a), ou chefe. Esse estilo de meter a boca e falar sem pensar, quando chega ao casal vai deteriorando a relação a ponto de um não respeitar o outro. Em casa carregamos nossos baterias, tiramos as armaduras e nos tornamos reis e titãs de nos mesmos, livres. O mundo é mais leve, mais nosso. Por isso, nas minhas peças gosto de escrever sobre relacionamentos, esse embate permite um trabalho mais apurado, um trabalho de composição e isso tem um resultado forte e satisfatório quando se trabalha com atores dedicados, dispostos a viajarem em seus papéis. Às vezes a simplicidade da estória, esconde um turbilhão de coisas e acontecimentos que não conseguimos entender por não prestarmos atenção ao outro em cena. A resposta é imediata e expontânea se você está ligado nos pensamentos do outro ator. Se esforçando para tentar descobrir o que o outro esta pensando você realmente estará representando. Você estará se desarmando e raciocinando as contradições do outro e ao mesmo tempo estará atuando de uma maneira realista. E porque não naturalista já que você está tentando descobrir qual será o próximo passo do seu interlocutor? Se o ator fizer tudo certo, tão concentrado que acreditará que realmente esta vivendo aquilo. O texto é realista porque é editado pelo dramaturgo, ou seja tirado eventos banais do natural e ficando os que julga importantes. Já o naturalismo, a coisa toda sem editar (os eventos da vida), se o ator manter esse fluxo de concentração, acreditando naquilo que faz, então ele estará fazendo naturalismo/realismo. Claro sem a projeção burra, sem as nuanças da voz, ele fará uma representação estereotipada. Não é assim que agimos na vida quando conversamos com alguém? Bom, pelo menos dentro do tipo de representação realista a qual o meu trabalho de pesquisa busca, tenho obtido bons resultados. Acho que agora estou achando algumas respostas, e realmente vendo em prática que funciona. Confesso que tenho me esforçado a tentar criar algum tipo de exercício que fora do palco possa me dar uma resposta parecida, que por enquanto só obtive sucesso na representação em si. Só inventando um meio artificial, acho que assim poderei me aprofundar um pouco mais nesse teatro, jogo, que para mim o ator é peça fundamental.
joelipimentel@yahoo.com.br
Domingo, Abril 04, 2004
Posted
7:14 PM
by JOELI PIMENTEL
Essas duas semanas foram foda, fomos ao Fringe, festival de Curitiba para duas apresentações, uma tecnicamente dificil por causa da mesa de luz, e era nossa primeira viagem como grupo. Mas foi superado, depois de um stress arrumaram outra mesa e a gente foi se entendendo e a peça foi du caralho. Foi legal ter ido, cresci um pouco como diretor(agora sei como é foda dirigir uma companhia) também revi alguns amigos. O J.M apareceu lá, o Beto lanza o Edvaldo Borgo( esses são o caras que sempre me dão uma força) Essa semana em Sampa re-estreiamos a peça: Onten à noite fiz minha garota chorar. Os camaradas apareceram, Bactéria, Marquinhos@, Padilha e esposa, Rocco, Murilo,Ronaldo, Fernando Peixoto entre outros. Agora posso voltar a escrever no blogger. Essa semana me fez olhar o teatro de uma outra maneira, com mais respeito pelo trampo das outras companhias. Um tempo atrás eu andava como estivesse de cabresto, não via peças de nenhum outro grupo. O que mais faço agora e ver o trampo dos outros.
Estou cercado de mulheres. Daniella Oropalo na op: de luz e Janaína Fainer na op: de som e Danielli Avila no elenco, minha namorada. A Dany tá mandando bem no personagem da Ziza, com o tempo e com as intermináveis discuções que tenho com todas elas estamos conseguindo afinar o espetáculo do jeito que acho que tem que ser. O único homem da companhia sou eu, às vezes me deixam atordoado com a energia delas, mas tá sendo bom, todos estamos com o mesmo objetivo, vejo que elas se esforçam para cada vez mais acompanharem as sutilezas tanto da luz como do som. Apesar da ansiade de todos, ficou bacana a peça lá no N.Ext, para quem não sabe estamos lá toda a qui e sex ás 21hr, rua Rego Freitas 454 - Centro. Ah! Depois da peça a gente fica enchendo a cara no bar do teatro, é uma das minhas manias antigas que não perdi.
texto e direção: Joeli Pimentel
Elenco: Danielli Avila e Joeli Pimentel
Produção: Cia Bala Perdida
joelipimentel@yahoo.com.br
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