Cadelas no cio não usam lingerie

Terça-feira, Maio 25, 2004


Bom, agora é verdade, este final de semana acontece as últimas duas apresentações da minha peça: ONTEM Á NOITE FIZ MINHA GAROTA CHORAR que está no teatro N.Ex.T rego freira 454, sábado as 21:30 e domingo as 19:00 hs


Só deixei de comer com colher quando tinha 25 anos, agora uso garfo e faca.


Quinta-feira, Maio 20, 2004




O Elefante vive mais, não há dúvidas mas, como nós, morre sozinho.


Segunda-feira, Maio 17, 2004


O sagrado e o ator

O sagrado no teatro, e principalmente no trabalho do ator, é o invisível que toma forma num milézimo de segundos. Ás vezes se materializando num gesto, numa fala. Você trabalha, pesquisa, para chegar no sagrado, nesse momento sublime da interpretação, tão esperado mas tão fugaz e incontrolável. Mas quando ele acontece, tanto público, como você ,ficam extaziados com esse sentimento oceanico, essa relação que se materealizou e tomou uma forma transparente, que todos ficam eufóricos e jurando um contato com o divino, aquela parte do nosso ser chegando nos seus caracteres mais sublimes do cerebro humano.


Domingo, Maio 16, 2004



Eu caminho devagar para não errar os passos


Eu te contei da história daquela mulher rica que já tinha criado os filhos e agora morava sozinha e tinha uma boa renda, que invés de adotar um cachorrinho, como as suas amigas, adotou uma menina de dez anos que morava na rua e se prostituía, contrariando a cidade todo que dizia que ela só iria ter dor de cabeça, que a menina não prestava, apesar da menina não saber se prestava ou não. Hoje a menina tem vinte anos e se formou na faculdade e cuida da mulher que hoje tem oitenta e três anos. E os cachorros já morreram todos e nunca deram tanta alegria as suas donas como essa adoção deu a essa mulher. Quando perguntam o porque dela ter tido essa coragem, de ir contra a opinião da sociedade, ela respondeu: Eu precisava acreditar na vida.


Se você me dissesse que me odeia seria tudo mais simples

Tudo bem

mas você não diz

Então tudo bem

Eu tenho que ir agora

Tenho que vender meus livros,

meus discos, meus cd's, minhas fitas, meu colete de motocross, nem moto eu tenho

Mas são suas coisas

É, são minhas coisas

Mas são só coisas
É, você tá linda

A gente precisa de quem aposte na gente

Que nos ame, que acredite, apesar do momento ser de desconfiança

Mas agora já é tarde

Que guerra é essa dentro de você?

Deixa eu matar esses pensamentos e conceitos ruins por você

Que conversa é essa que você é duas?

Eu ainda sinto teu cheiro

o gostinho do teu sexo na minha boca

Lembra das festas de pizzas nos motéis?

...e aquela tevê a cabo sem sintonia?

e a gente entrando escondido com garrafas de vinho na bolsa.

Foi o melhor sexo em dias

Você é duas

E eu sou só um

Que bom que você apareceu sozinha, sem a outra

Da última vez que você disse que eu era um babaca

que não te via como você era

eu até comprei um par de óculos escuros na rodoviária de Carrancas

Foi uma maneira de ti dizer que estávamos juntos

Eu te amo, vai

Numsei nada de nada

Se você dissesse que me odeia tudo bem

Mas você não diz

Ri de novo pra mim

Eu sei que tenho que conquistar as duas de você

Mas a outra de você é racional ao absurdo, mimada

Deixa eu dormir em você

Usa aquela calcinha combinando com o sutiã

Qual?

A azul turquesa?

Vem sim

Tenho estado louco

Mas vem de pressa

Vem sim

Acha que uma pessoa pode enlouquecer duma hora pra outra, sem se matar?

Eu tô pirando do seu lado

Porra! e você não me faz nada

O que eu tô fazendo aqui?

Acho que tô de novo com aquela voz do Nirvana na cabeça

Acaba logo com isso

Vem... pra minha vida

Mas deixa a luz apagada

Posso me deitar dentro de você?

Você é a minha garota

Você me odeia o suficiente para me apresentar para os seus pais?

Você viveria comigo?

Por você eu cheiro tudo

Mas não desista de mim

Tenho que ir

senão vou perder o busão

Que? Se é verdade?

É.O amor enlouquece




Quarta-feira, Maio 12, 2004


Tá foda meu!!!!


Convivemos com as diferenças não com a indiferença


Sábado, Maio 08, 2004



Minha mãe foi uma das primeiras moradoras do bairro a se cadastrar no projeto de expansão da companhia telefônica para ter sua própria linha de telefone. Isso foi logo quando me mudei para São Paulo. Passo meses sem vê-la e ela sem ter noticias minhas. Como ela não sabe ler não tínhamos como manter contato a não ser viajando pra lá que me é quase impossível por estar sempre duro. Já faz dois anos que moro aqui e a linha finalmente chegou. Agora nos falamos pelo menos uma vez por semana.
- Dimi, São Paulo. Ligo a cobrar.
- Dimi, é a Lena. Minha irmã que atende.
- Câde a mãe?
- Tá no hospital.
- No hospital?
- É.
- O que ela tem?
- Fora a dor do reumatismo degenerativo das mãos?
Minha velha mãezinha já está beirando a casa dos sessenta anos. Preciso ganhar muito dinheiro vencer enquanto ela ainda esta viva, pra poder ajudar nas despesas. Ela não conheço o mar. Vivi me pedindo para leva-la pra ver o mar.
- Foi levar o Jorge no pronto socorro.
Jorge é o companheiro da minha mãe. Ele mija na cama. Tem problema na bexiga. Ele trabalha de pedreiro. Depois de um dia duro enchendo laje vai pro bar com os amigos tomar alguns goró. Ele cuida bem da minha mãe. Beber é o hábito de quase todos os peões da construção civil. Eu mesmo era um cachaceiro. Matei-me carregando tijolo e sendo garçom de concreto. Oficio que é o ganha pão dos meus irmãos e dos meus amigos que estudaram comigo lá em Cambé. É isso ou furar foça pra neguinho cagar. Não tenho pai. Morreu ainda quando éramos todos pequenos. Meteu um tiro na cabeça.
- O que ele tem?
- Encheu a cara de cachaça e foi atropelado quando voltava de bicicleta pra casa.
- Quando foi isso?
- No sábado. Mas só agora conseguiram pegar ele a força e botar na ambulância. Precisou de uns quatro homens pra socar ele lá dentro.
- E você? Beleza?
- É. Vai indo nê fiiu.
- E os meus sobrinhos?
- O Paulinho, amigou com uma menina e trouxe ela para morar comigo. Os outros dois são uns baderneiros. Sai daí, não tá vendo que cai. ¿ dá bronca no Jéferson.
Lena é tão jovem e já é viúva e com três filhos pra criar. Falta de grana dá tiro pra tudo quanto é lado ela me diz. Abriu um boteco na casa que logo faliu. Começou a vender cachorro quente que também faliu. Agora deve pra todo mundo. O marido dela morreu de Aids. Era viciado. Pegou tomando baque. O braço dele era todo machucado das picadas da agulha. Os médicos disseram que era muita sorte o neném nascer sem estar contaminado e nem ela pegar a doença. No natal passado antes dele morrer ele apareceu bêbado desesperado na casa da minha mãe, eu estava lá. Ele me abraçou chorando e pediu desculpas. Disse que considerava a nossa família. Que se sentia bem entre nossa família. Que não queria morrer. Que sabia que seu fim estava chegando. Ele só não podia precisar o dia. E que isso o estava levando a loucura quando pensava que podia acordar morto. E que se fosse então pra morrer que fosse uma morte rápida e que não deixassem entuba-lo de novo. Aquilo sim era pior do qualquer doença. Um ano de depois se internou por causa dum simples resfriado, tinha tido alta e já iria voltar pra casa no domingo, quando seu quadro se agravou de repente e tiveram que entuba-lo. A doença foi mais forte e o matou. Se estivesse lá não teria deixado que o entubassem. Ele iria morrer de qualquer jeito.
- Eu vou desligar se não vai ficar caro a ligação.
- Eu digo que cê ligou.
- Dá um abraço em todos e fala pra mãe que eu tô legal, desligo.
A gente ama algumas pessoas que nos deixam. A gente deixa algumas pessoas que nos amam.






Aquela noite peguei no sono bem tarde. Tive dia de cão irmãozinho. Sacumé? Preciso acertar o meu relógio com os das mulheres de vida fácil e bunda flácida que fazem programa de baixo da minha janela. Acordei horas mais adiante na madrugada com gritos de mulher:
- SEU FUDIDO. SEU DISTRUIDO. NÃO QUERO MAIS VER VOCÊ BATENDO NO MEU FILHO. HOMEM SEM PALAVRA. HOMEM SEM PALAVRA NÃO É HOMEM. MEU PREÇO É VINTE. POR MENOS NÃO FAÇO. ACHA QUE ACHEI A MINHA BUCETA NO LIXO? SEU PORCO NOJENTO E NÃO ME OBRIGUE A CHUPAR MAIS ESSE SEU PINTO MOLE.
Me levantei da cama para anotar um sonho maluco que tive. Subterrâneo. Eu me disfarcei de padre pra comprar maconha. Botei batina e tudo e entrei na favela. Quando cheguei numa esquina fui apanhado, um moleque de fuzil na mão me flagrou. Era só dar uns cascudos nele e passar pensei.
- Ei padreco! Errou o caminho do céu?
- É. Me perdi do rebanho. As ruas por aqui são todas iguais meu jovem.
- É. As ruas não levam a lugar algum. A não ser que saiba onde está indo. Claro que não é o seu caso, né seu padre? Tem uns trocados ai seu religioso?
- Não ando com carteira meu filho. Fiz voto de pobreza. Dou-lhe um santinho de Sto Agostinho se desejar.
- Enfia no cu santíssimo.
- Sofro das hemorróidas.
- Tá de onda comigo seu padre?
- Que isso meu filho. Bom vou indo então. Tenho muitas almas pra visitar. Aparece lá na igreja quando quiser meu filho há sempre lugar pras criaturas de Deus na minha paróquia.
- Vai precisar de algum dinheiro pra sair.
- Então vai ter que ser na mão grande. ¿ saquei uma submetralhadora com silenciador de baixo do vestidão de padre e mandei azeitona no guri.


Segunda-feira, Maio 03, 2004



Trabalho de Composição

Ps: republicando para aparar possíveis arestas (realismo/naturalismo) Agora acho que ficou mais claro.

Quase sempre utilizo em minhas peças um ambiente fechado, ou no decorrer da trama ele vai se fechando. É uma maneira de encurralar o personagem e praticamente força-lo a tomar uma decisão. Ontem à noite fiz minha garota chorar, é uma peça que um casal em um quarto é obrigado a se encarar, mesmo com todo o conforto eletrônico, chega um momento que não dá para suportar, é como um cachorro preso, mas que foi acostumado a sair de casa para passear todo fim de tarde e quando isso não acontece ele fica agoniado. É claro que isso provoca uma reação, quase sempre agressiva para com o outro. Você acaba se tornando cínico, desconfiado, cético. Daí começa a se afastar do outro pelo tédio que sentem, e pelo fim da admiração que tinha pelo companheiro que não supriu suas expectativa e agora foi se acabando, e o distanciamento que cada um, por vaidade ou egoísmo, vai tomando conta da relação, até destruí-la por completo. Esses ambientes caustrofóbicos, levados ao espaço físico do teatro, acho, que quase dá para criar a mesma sensação de aprisionamento psicológico da personagem. Uma espécie de metáfora para o mundo de competitividade, stress e pressa que vivemos. Gosto de escrever estórias que mostrem o ser humano em estado bruto, longe dos papéis que representamos no dia a dia para os outros. Só somos nós mesmo, acredito eu, quando estamos no aconchego do nosso lar. É nesse ambiente tranqüilo cheio de segurança, o único lugar onde as pessoas fazem e falam o que normalmente não fazem em público, como aquele comentário crítico e maldoso sobre a conduto ou trabalho de determinado amigo(a), ou chefe. Esse estilo de meter a boca e falar sem pensar, quando chega ao casal vai deteriorando a relação a ponto de um não respeitar o outro. Em casa carregamos nossos baterias, tiramos as armaduras e nos tornamos reis e titãs de nos mesmos, livres. O mundo é mais leve, mais nosso. Por isso, nas minhas peças gosto de escrever sobre relacionamentos, esse embate permite um trabalho mais apurado, um trabalho de composição e isso tem um resultado forte e satisfatório quando se trabalha com atores dedicados, dispostos a viajarem em seus papéis. Às vezes a simplicidade da história, esconde um turbilhão de coisas e acontecimentos que não conseguimos entender por não prestarmos atenção ao outro em cena. A resposta é imediata e expontânea se você está ligado nos pensamentos do outro ator. Se esforçando para tentar descobrir o que o outro esta pensando você realmente estará vivênciando tudo aquilo, estará se desarmando e raciocinando as contradições do outro e ao mesmo tempo estará atuando de uma maneira realista. E porque não naturalista? Já que você está tentando descobrir qual será o próximo passo do seu interlocutor. Não é assim que agimos na vida quando conversamos com alguém? O texto é realista porque é editado pelo dramaturgo, ou seja, tirado eventos banais do natural e ficando os eventos que julga importante para a ação das personagens. Já o naturalismo, a coisa toda sem editar (os eventos da vida com o seu tempo natural de ser) , se o ator manter esse fluxo de concentração, acreditando naquilo que faz, então ele estará fazendo naturalismo/realismo. Claro, que mesmo o texto sendo realista, dependendo da concepção do encenador, se ele optar por outro caminho, ele poderá dar uma direção surrealista se quiser. Ou seja, o naturalismo está mais a cargo do trabalho do ator que do texto. Com a projeção burra, sem respeitar as nuanças da voz, o interprete fatalmente fará uma representação estereotipada. Se o ator acreditar no que esta contando no palco, as nuanças da voz estarão corretas e naturais. Então poderemos ver o turbilhão de pensamentos que passa pela cabeça do ator quando ele dá uma pausa, ou mesmo pensa, mais não fala nada.
Bom, pelo menos dentro do tipo de representação realista a qual o meu trabalho de pesquisa busca, tenho obtido bons resultados. Acho que agora estou achando algumas respostas, e realmente vendo em prática que funciona. Confesso que tenho me esforçado a tentar criar algum tipo de exercício que fora do palco possa me dar uma resposta parecida, que por enquanto só obtive sucesso na representação em si. Só inventando um meio artificial, acho que assim poderei me aprofundar um pouco mais nesse teatro, jogo, que para mim o ator é peça fundamental.

Joelipimentel@yahoo.com.br


Extra!Extra! A cia. Bala Perdida prorroga a temporada da peça: ONTEM À NOITE FIZ MINHA GAROTA CHORAR, devido ao sucesso (pelo menos nas últimas semanas) no teatro N.Ex.T, Rego Freitas 454 - centro - próximo ao metrô Republica. Agora estaremos em cartaz Sábado as 21:30 hr e Domingo as 19:hr.
serviço:
Ontem à noite fiz minha garota chora
texto/direção/sonoplastia/iluminação: joeli pimentel
elenco: danielli avila e joeli pimentel
assessoria de imprensa/op. de som/bilheteria: janaina fainer
op. de luz: daniela oropallo
produção: danielli avila


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