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Terça-feira, Setembro 21, 2004
Posted
4:59 PM
by JOELI PIMENTEL
O forro do quartinho tá com infiltração, sempre que chove eu tenho que ficar de pé dentro do quarto, se for de noite é um pouco pior, corro o risco de morrer afogado dormindo. A pequena janela que me mantém em contato com o mundo externo, tá com parte do vidro detonado. Na frente da pensão fica o escritório dos donos que são Advogados, todos da mesma família. O pai é um ex delegado aposentado. Logo quando você abre a porta de entrada é recebido por um corredor de tapete vermelho encardido, digno do filme Burton Fink. São tantas as portas de quartos que deixaria o cara que projetou a Cohabe e o Singapura com inveja.
Já roubaram duas cuecas minha do varal, por isso eu estou agora, aqui sentado, vigiando as minhas roupas. Vigiando o varal... Quantos esqueletos de vida... Essas roupas tem muito a contar dos seus donos. Um jaleco verde com manchas de óleo, o dono deve trabalhar de chapeiro numa lanchonete qualquer da 13 de Maio. Uma calça bastante surrada, um outro, e outro uniforme de quem trabalha na construção civil. Essas roupas também lembram um monte de couro pendurado no frigorifico, só que com couro de gente. Ou seria gente empalada viva por Vlad III?
O varal cheio de roupas lavadas... lençóis. O barulho da panela de pressão cozinhando feijão, cheiro que dá saudade de casa, da mãe, dos irmãos dos amigos. Me sinto um soldado em campanha em terras desconhecidas.
Que coisa mais estúpida. Cuecas. Elas que se fodam. Pessoas que roubam cuecas? Já vi ladrão de tudo, mas de cueca é a primeira vez. Deixarei que me roubem todas as cuecas? Ou registrarei queixa na delegacia? Não. Vai que os policias tocados pelo meu drama resolvem me ajudar doando as suas cuecas usadas.. Que pobre infeliz é esse que não tem sequer uma cueca? Tá, eu também não sou nenhum proprietário de dúzias de cuecas. Comprei essas três (menos duas que me roubaram) a um ano quando ainda vivia da minha profissão. As minhas cuecas são velhas, mas são bem tratadas, só lavo com sabonete após o banho. Que cuecas tem esse privilégio hoje em dia? De tomarem banho de chuveiro com seu usuário? O famigerado ladrão quer me ver sem cuecas. Só me resta mais uma. Ficarei de campana, o desgraçado a de aparecer. Vou esperar, esperar... Que saco! Espero. Espero e nada. Ele é um covarde, não ousaria aparecer com sua fuça por aqui. Eee. Começou a ventar... Tá ventando pra cacete, isso é bom para as roupas secarem mais rápido, seria bom se eu tivesse pregadores, mas eu não tenho essas porrinhas, então lá vai eu pro tanque lavar o que eu já tinha lavado. Tenho que esperar um pouco, até o argentino liberar o tanque pra mim.
Depois que a economia dos nossos vizinhos ricos degringolou tem até argentino morando aqui nas moradias do 3º mundo, bom pelo menos ele tem pregadores, só o otário aqui que precisa fazer o mesmo trabalho duas vezes.
Bom, pelo menos descobri que não estava sendo roubado, era o vento que derrubava as minhas cuecas do varal. Como eu não freqüento muito este local, na ausência de reclamante ia parar no lixo.
Posted
4:56 PM
by JOELI PIMENTEL
Um beijo me cala
um copo d'agua ela nem me vê,
um blogger, o mundo é muito injusto, ela nem me lê
um tropeço cadê você?
Sexta-feira, Setembro 03, 2004
Posted
7:34 PM
by JOELI PIMENTEL
Começo a montar o filme Mais um dia chutado na bunda na semana que vem, devido ao feriadão, atrasarei uns dias. Por enquanto vou ver a mostra internacional de curtas metragem. Vou descansar das pesquisas, antes de começar também a maratona da peça nova. Venho alimentando esse sonho de montar uma grande peça de teatro com a cia Bala Perdida que tem a pretensão de ter um pouco de magia, lutas etc, mas com os dois pés na realidade da cidade de São Paulo. Passando pelo livro dos mortos, Wlad III etc.
Quinta-feira, Setembro 02, 2004
Posted
3:13 PM
by JOELI PIMENTEL
Certos caminhos nunca terminam
A luz, a parte velha da cidade onde o sol teima em não aparecer. A rua escura, e fria das sombras que protegem os desgraçados na sua fuga de vícios e os corruptos na sua violência. O sujo da demência, a impotência, o desespero de que nada será feito, o mergulho das almas impuras na correria pra lugar nenhum. Os habitantes desvalidos, esquálidos, sem esperança, vitimados pelo rolo esmagador da ganância duma cidade frenética que não descansa nunca. A sorte, há sempre alguém fugindo de alguma coisa nessa parte da cidade, e se escapam é por pura sorte, e se vivem, é só por mais alguns dias... milagre. A arquitetura, viadutos como lar, prédios abandonados invadidos, sobrados antigos dos esquecidos, moradia de migrantes, semi sem tetos, amontoados uns em cima dos outros. O sujeito que procura no bolso, a nota de um real pra mais uma dose chorada de conhaque. O sistema que massacra os que não tem força política, ou algum tipo de bens. A mulher, que não tem um vestido, uma calcinha nova para vestir, que não pode comprar leite para seus filhos, que não tem assistência médica, que não tem escola para seus filhos, que não tem emprego para seus irmãos e seu marido desempregado. Os ricos, os intelectuais, exploradores da miséria com seu vicioso maneirismo da burguesia consumidora. A pobre marginalizada gente que freqüenta o outro lado dessa cidade, que como o rato, só sai do seu esconderijo pra fuçar no lixo alheio quando cai à noite e todos foram embora. Eles se metem no sujo e não se importam, sabem que é o único jeito de sobreviver. Os ruídos, o estouro de armas, os urros de dor, o clek clek dos sapatos fugindo. A imagem, o corpo caído na calçada com os olhos esbugalhados, como quem viu seu assassino e teve que morrer sem ter forças para lutar com o covarde. De certa forma tudo é fiel ao noir, com sua fuga, roubos e seus policias meio patetas, mais violentos. Mais um dia chutado na bunda, meu segundo curta metragem, foi gravado em 3 dias com uma equipe reduzidíssima, mas dentro do possível do tempo, da pressão, e acrescente ai a ansiedade, a duvida e a insegurança, mas no final tudo deu certo. Quero agradecer aos atores pela paciência, pela dedicação e pelo companheirismo e por acreditarem em mim: ao Nelson Perez, Murilo Salles, Jairo Matos, Paulo Jordão e a Silvia Malena, e a equipe técnica: Direção de Fotografia/Câmera: Pierre (que abraçou o projeto ainda quando estava na França, só porque gostou do roteiro, e mesmo sabendo que eu não era um acadêmico e sim um autodidata em cinema, topou embarcar no filme) Operador de áudio: Guga ao PH que deu uma força na parte elétrica varando madrugada com a gente. E claro, as duas produtoras e atrizes do filme Danielli Avila e Janaína Fainer que sem o apoio e a plena confiança delas esse filme não seria possível. E a cia. Bala Perdida, e a todos esses profissionais que deram seu tempo ao filme, que deram o melhor de si, que ficaram madrugadas inteiras gravando, que tiveram coragem de embarcar com a gente nessa viagem noir, andando feito guerrilheiros armados pelos guetos dessa grande São Paulo: Bom Prato, as ruas da Estação da Luz, os corredores escuros da Pensão no Bexiga, o boteco no Bom Retiro, a todos a minha gratidão. Certos caminhos não terminam nunca, nos vemos por ai.
Joeli Pimentel
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